5 de outubro de 2009

Abuso Espiritual

"Caro Presbítero,

Com relação ao abuso espiritual, os mais feridos foram sempre os mais próximos. Por que?"

Prof. Alessandro



Caríssimo irmão,

Deixe-me colocar aos que ainda desconhecem o que é "abuso espiritual".
Abuso espiritual significa qualquer situação na qual uma pessoa com mais poder religioso fere uma pessoa com menos poder, causando dano à sua vida espiritual, emocional, física, familiar ou financeira; obstruindo a ação do Deus que liberta, cura, e restaura.

Acontece, infelizmente, nas Igrejas Católicas e também nas Igrejas Evangélicas. Pessoas são usadas, manipuladas em nome de Deus, causando não somente sofrimento, mas resistência e aversão ao Evangelho.
O exercício do poder, centralizado em uma pessoa ou em um título, pode enaltecer doentia e arbitrariamente o líder religioso, levando-o a cometer excessos no cumprimento do dever a ele outorgado. Tem-se verificado no decorrer da história, atrocidades cometidas em nome da fé e em nome de Deus, por líderes que se sentem representantes de uma divindade (sendo que alguns líderes parecem mais divinos do que humanos), a qual precisa ser defendida através dos mais variados mecanismos, mesmo que os valores basilares da sociedade humana sejam desrespeitados. Em nome de uma religião, homens e mulheres têm perdido muito daquilo que os caracterizam como seres humanos. Valores intrínsecos à natureza humana têm sido violados em defesa de um ser superior, fazendo com que a existência humana perca sentido, beleza e o encanto a ela inerente.
O Deus revelado nas Escrituras não age de maneira despótica. A sua criatura é vista como algo muito bom. Por isso, a Sua intervenção na história humana, tem como objetivo restaurar o ser descaracterizado pela opção pelo poder. O poder desfigura, retira a simplicidade e a inocência. Enquanto o poder desumaniza, o amor reumaniza, tornando o homem verdadeiramente humano, caracterizado por uma relação de dependência com aquele que é Amor.
Deus age a partir do amor. Deus age impulsionado por aquilo que Ele é. Nas palavras de João Deus é Amor. Conforme Jung Mo Sung,
Se Deus é Amor, isto é, se Deus coloca o amor acima do próprio poder, nem tudo o que acontece no mundo é fruto da sua vontade. Se ele é Amor e ama a humanidade, ele respeita a liberdade dos seres humanos. Pois sabe, mais do que ninguém, que o amor só pode ser correspondido na liberdade. O amor é inseparável da liberdade. Por isso, São Paulo também disse que onde está o Espírito de Deus, o Espírito do Amor,“aí está a liberdade (2Co 3.17).
O ofício pastoral e tudo o que a ele compete, deve estar necessariamente submetido ao dono da Igreja, Jesus Cristo. Em suas próprias palavras, O discípulo não está acima do seu mestre, nem o servo acima do seu senhor.  Basta ao discípulo ser como o seu mestre, e ao servo, como o seu senhor (Mt 10. 24-25a).  Desrespeitar esse princípio é assumir uma posição ilegítima, impulsionada pela força e sofismas do poder político e religioso, com tendências manipuladoras e centralizadoras, voltado para interesses pessoais e egocêntricos.
A seguir apresento o artigo 7 Características de igrejas que cometem abuso espiritual, do autor Ronald M. Enroth, com título do original em inglês: Churches that Abuse

1) Scripture Twisting (Distorção da Escritura): para defender os abusos usam de doutrinas do tipo "cobertura espiritual", distorcem o sentido bíblico da autoridade e submissão, etc. Encontram justificativas para qualquer coisa. Estes grupos geralmente são fundamentalistas e superficiais em seu conhecimento bíblico. O que o lider ensina é aceito sem muito questionamento e nem é verificado nas Escrituras se as coisas são mesmo assim, ao contrario do bom exemplo dos bereanos que examinavam tudo o que Paulo lhes dizia.

2) Autocratic Leadership (liderança autocrática): discordar do líder é discordar de Deus. É pregado que devemos obedecer ao ditador, digo discipulador, mesmo que este esteja errado. Um dos "bispos" de uma igreja diz que se jogaria na frente de um trem caso o "apóstolo" ordenasse, pois Deus faria um milagre para salvá-lo ou a hora dele tinha chegado. A hierarquia é em forma de pirâmide (às vezes citam o salmo 133 como base), e geralmente bastante rígida. Em muitos casos não é permitido chamar alguém com cargo importante pelo nome, (seria uma desonra) mas sim pelo cargo que ocupa, como por exemplo "pastor Fulano", "bispo X", "apostolo Y", etc. Alguns afirmam crer em "teocracia" e se inspiram nos líderes do Antigo Testamento. Dizem que democracia é do demônio, até no nome.

3) Isolationism (Isolacionismo): o grupo possui um sentimento de superioridade. Acredita que possui a melhor revelação de Deus, a melhor visão, a melhor estratégia. Eu percebi que a relação com outros ministérios se da com o objetivo de divulgar a marca (nome da denominação), para levar avivamento para os outros ou para arranjar publico para eventos. O relacionamento com outros ministérios é desencorajado quando não proibido. Em alguns grupos no louvor são tocadas apenas músicas do próprio ministério.

4) Spiritual Elitism (Elitismo espiritual): é passada a idéia de que quanto maior o nível que uma pessoa se encontra na hierarquia da denominação, mais esta pessoa é espiritual, tem maior intimidade com Deus, conhece mais a Biblia, e até que possui mais poder espiritual (unção). Isso leva à busca por cargos. Quem esta em maior nível pode mandar nos que estão abaixo. Em algumas igrejas o número de discipulos ou de células é indicativo de espiritualidade. Em algumas igrejas existem camisetas para diferenciar aqueles que são discípulos do pastor. Quanto maior o serviço demonstrado à denominação, ou quanto maior a bajulação, mais rápida é a subida na hierarquia.

5) Regimentation of Life (controle da vida): quando os líderes, especialmente em grupos com discipulado, se metem em áreas particulares da vida das pessoas. Controlam com quem podem namorar, se podem ou não ir para a praia, se devem ou não se mudar, roupas que podem vestir, etc. É controlada inclusive a presença nos cultos. Faltar em algum evento pro motivos profissionais ou familiares é um pecado grave. Um pastor, discípulo direto do líder de uma denominação, chegou a oferecer atestados médicos falsos para que as pessoas pudessem participar de um evento, e meu amigo perdeu o emprego por discordar dessa imoralidade.

6) Disallowance of Dissent (rejeição de discordâncias): não existe espaço para o debate teológico. A interpretação seguida é a dos lideres. É praticamente a doutrina da infalibilidade papal. Qualquer critica é sinônimo de rebeldia, insubmissão, etc. Este é considerado um dos pecados mais graves. Outros pecados morais não recebem tal tratamento. Eu mesmo precisei ouvir xingamentos por mais de duas horas por discordar de posicionamentos políticos da denominação na qual congregava. Quem pensa diferente é convidado a se retirar. As denominações publicam as posições oficiais, que são consideradas, obviamente, as mais fiéis ao original. Os dogmas são sagrados.

7) Traumatic Departure (saída traumática): quem se desliga de um grupo destes geralmente sofre com acusações de rebeldia, de falta de visão, egoismo, preguiça, comodismo, etc. Os que permanecem no grupo são instruídos a evitar influências dos rebeldes, que são desmoralizados. Os desligamentos são tratados como uma limpeza que Deus fez, para provar quem é fiel ao sistema. Não compreendem como alguém pode decidir se desligar de algo que consideram ser visão de Deus. Assim, se desligar de um grupo destes é equivalente a se rebelar contra o chamado de Deus. Muitas vezes relacionamentos são cortados e até famílias são prejudicadas apenas pelo fato de alguém não querer mais fazer parte do mesmo grupo ditatorial.

Sugiro para complementar as informações, a leitura do livro: O abuso espiritual em igrejas evangélicas, de Marília de Camargo César, editora-assistente do "Valor", escreve sobre a cisão que aflige o evangelismo brasileiro.

A maioria dos problemas que enfrentamos na Igreja do século XXI, está diretamente relacionada às lideranças das igrejas de todas as denominações, o que lhes permite manter, com mão de ferro, o absoluto controle sobre o Povo de Deus. Precisamos, urgentemente, pedir que Deus suscite uma nova geração de pastores que possuam genuínos corações de servos. Corações que estejam realmente no servir o povo de Deus e não em serem servidos. E, por favor, vamos aprender de uma vez por todas, que igrejas e ministérios multimilionários, não servem realmente aos propósitos de Deus de levar o evangelho a todas as pessoas deste mundo.

O Que Fazer?
Algumas atitudes práticas para se livrar de situações de abuso espiritual.

1. Não é fácil colocar em prática as atitudes aqui descritas, elas não são milagrosas, principalmente pelos mecanismos de dominação e controle que existem e que estão disponíveis aos pastores e igrejas abusadoras. Todavia, vale à pena tentar.
2. Em primeiro lugar precisamos entender como verdade bíblica, que não existem pastores que sejam "ungidos do Senhor" de uma forma especial. Precisamos compreender que eu e você, as simples ovelhas, recebemeos de Deus mesmo, uma unção que é exatamente igual a que um pastor recebeu. Portanto não nos sintamos intimidados nem amedrontados diante das ameaças. Pastores são tão mortais quanto todos nós, mesmo que gostem de pensar de si mesmos mais do que convém - ver Romanos 12:3. Discordar de um pastor abusador pode não ser fácil, mas não trará as conseqüências anunciadas pelo abusador e seus seguidores.
3. Depois, necessitamos entender que não existe uma diferença de posição quando se compara a um pastor. A simples ovelha e o mais "exaltado" dos pastores estão exatamente na mesma posição: ambos estão "em Cristo". Não existe, portanto, nenhuma diferença na posição. Pastores não estão em posições mais elevadas ao passo que as ovelhas estão em posições mais inferiores. Isto não existe, é uma invenção de homens maldosos e aproveitadores. Todos os crentes estão em uma e mesma posição: estamos todos EM CRISTO. Ver Efésios 4:11 - 16.
4. Precisamos entender que a mesma consideração e respeito que devemos ao irmão-pastor é exatamente a mesma que você deve a todos os outros irmãos. Por outro lado, os pastores devem exatamente a mesma consideração e respeito a todos os irmãos, sem exceção.  Os mandamentos de reciprocidade  (UNS AOS OUTROS) precisam ser praticados por todos os crentes, sejam eles ovelhas, sejam pastores. Note a quantidade de vezes que o mandamento de amor recíproco é repetido. Lembremos sempre que o abuso espiritual é fruto absoluto da falta do amor de Deus na vida do abusador! Mesmo falando em nome de Deus, pastores-abusadores não possuem o amor de Deus em seus corações.
5. Além disso, precisamos compreender que não existe nenhuma possibilidade de diálogo com um pastor abusador. Eles estão irremediavelmente viciados pelo poder e pelo prazer que o abuso provoca em suas mentes. Não perca tempo tentando argumentar. Não adianta nada. Não vale à pena. Ouça as palavras do Senhor com relação aos abusadores dos seus dias: Deixai-os; são cegos, guias de cegos. Ora, se um cego guiar outro cego, cairão ambos no barranco - Mateus 15:14.
6. Se decidir abandonar o redil de um pastor abusador, não iremos para o inferno. O que nos destina ao inferno é o pecado. A recomendação é inclusive esta. Não é uma decisão fácil, mas para o nosso próprio bem, quanto antes você tomarmos esta decisão, melhor para nós. O Faraó não gostava dos judeus, mas precisava deles! O pastor abusador não gosta de você, mas ele precisa de você. Você não precisa de nenhum pastor abusador. De fato, sem você não existe pastor abusador. Vire as costas e deixe ele se virar.
7. Precisamos nos dipor a obedecer ao Senhor e a ignorar aqueles que, usando o nome do Senhor, desejam somente escravizá-lo. Lembre-se, em todos os lugares onde o Espírito do Senhor está existe verdadeira liberdade - ver 2 Coríntios 3:17. Qualquer outra situação não passa de engodo para manter as pessoas cativas.
8. Lembremos também, que na grande maioria das vezes, pastores abusadores e seus seguidores, agem de maneira completamente irracional. Agem como verdadeiros pit-bulls, atacando sem nenhuma justificativa plausível. Uma das maneiras mais comuns deste tipo de irracionalidade é tratar as pessoas como se elas não existissem. Ai! Como dói um irmão de muitos anos, de repente, virar o rosto e fingir que você não existe! Isto é o que podemos chamar de atitude irracional. NÓS NÃO TEMOS NENHUMA OBRIGAÇÃO DE NOS RELACIONAR COM PESSOAS IRRACIONAIS! Portanto, se você está passando por abuso espiritual, não se acanhe, tome uma decisão definitiva, de banir de sua vida, de uma vez por todas, estas pessoas que te tratam desta maneira.
9. Não adianta insistir. Falar, argumentar e até mesmo implorar não surte nenhum efeito em pessoas irracionais. Tentar convencê-los com argumentos lógicos irá apenas levar você à exaustão. Lidar com pessoas que agem desta maneira é estar em uma situação onde se é impossível vencer. Então, se você não pode vencer, pra que perder tempo batalhando?
10. Faça tudo que estiver ao teu alcance para evitar se vir aprisionado em situações em que você não tem à mínima chance de vencer. Fuja destas situações.
11. Procure alguma comunhão onde você possa ter suas feridas tratadas por um verdadeiro pastor-servo. Minha convicção é que Deus, em Sua misericórdia, ainda tem muitos homens deste calibre, espalhados por todos os lugares. Peça a orientação de Deus. Dependa da força que o Senhor mesmo pode suprir. Decida servir o Senhor livre de todos os impedimentos e tropeços que pastores abusadores insistem em colocar no caminho dos filhos de Deus.

Quanto ao seu questionamento inicial,  de fato os mais feridos são os que estão mais próximos por estarem mais envolvidos, com um relacionamento mais estreito e muitas vezes mais fragilizados. E como resultado na área de abrangência do abusador estão principalmente aqueles que de alguma forma estão ainda "servindo" de matéria prima do abusador.
Que Deus nos livre de relacionamentos deste tipo. E que a Igreja do Senhor seja purificada, e se apresente sem mácula, rugas ou manchas diante do Senhor da Igreja.

Márcio Melânia

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